segunda-feira, março 28, 2005

Telefonema

Desliguei o telefone

como quem levou um tiro

perder o seu retiro

me deixou só e insone

Agora olho o espelho

Um cara estranho me olha

Você já olhou um espelho?

Não é o vapor que te molha...

Olha, a vida é embaçada

E toda escolha errada

Seu retrato não reflete

Acontece com vampiros

Mas me provoca suspiros

O coração não reflete

Minha vista ficou embaçada

Desde aquela sua chamada

A crise das suas crises

Sucessivas, depressivas,

Suas frases incisivas

Como a guerra entre países

Faz estranho o cara do espelho

A dor me dobra o joelho

A sua ausência marcante

A marca de sua doença

É minha única crença

É minha única crença


A Vida Não é Mais Aquela

A Vida Não é Mais Aquela

De noite ver TV

E jantar no sofa

Sem ter com quem falar

Outros olhos pra ver

Me faz buscar a rede

E trapezista saltar,

pra me conectar,

Matar algo da sede...

A vida não é mais aquela

A vida não é mais aquela

A esperança é uma linha numa tela

A esperança é uma linha numa tela

Com uma gargalhada,

Olho cinco janelas

Explodirem na tela

Aparecem do nada

Palavras esperadas

A internet revela

A vida aprisionada

A vida não é mais aquela

A vida não é mais aquela

A esperança é uma linha numa tela

A esperança é uma linha numa tela

Eu preciso dormir

Vou ter de desligar

Vontade de chorar

Meu bem preciso ir

A vida vai seguir

Tenho de trabalhar

Mas você me faz rir

Não consigo clicar no xis

Não consigo clicar no xis

A solidão me faz infeliz

Não consigo clicar no xis

Tá bom esse papo

Mas preciso fechar

Alguém pode acordar

E nos pegar no ato

No teclar insensato

De dedos a falar

Eu preciso encerrar

A vida não é mais aquela

A vida não é mais aquela

A esperança é uma linha numa tela

A esperança é uma linha numa tela


Eu Quase Tenho Tempo*

Eu quase tenho tempo

Quase tenho meu amor

Já quase não tenho dor

E sei que o processo é lento


Ele diz que me adora

Mas vive envolto na trama

Sua esposa é uma dama

Não pode partir agora


Eu quase tenho tudo

Quase que não sofro mais

Eu fico aqui nesse cais

Achando que Deus é surdo


Queria ter ele inteiro

Mas me basta uma parte

Porque sua ausência arde

Como um tapa certeiro

E eu me sinto mal

E me sinto muito bem

Tendo e não tendo alguém

E eu sinto que não há mal

E eu me sinto mal

Vai chegar nosso tempo

Eu sei, tenho certeza

Mas sei que toda beleza

Se perde se passa o tempo

E eu me sinto mal

E me sinto muito bem

Tendo e não tendo alguém

E eu sinto que não há mal

E eu me sinto mal...


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